O Órgão Vomeronasal e a Atração Sexual

Gostou do nosso conteúdo?
Compartilhe com seus amigos!

Ao assinar o AFH+ você tem acesso a exercícios exclusivos e materiais extras. Experimente ser um usuário premium e libere todo o conteúdo do site sem anúncios . Clique aqui para conhecer.

O órgão vomeronasal e a atração sexual

 

 

Além de influenciar as emoções, as respostas viscerais às emoções, a motivação, o humor e as sensações de dor e prazer, o sistema límbico está associado aos instintos básicos de sobrevivência: 

  • procura de comida e água,
  • reprodução.

 

Cheiro.
Fonte: https://www.tumbex.com/x24601x.tumblr/posts

Uma das principais fontes de estímulo sensorial para o sistema límbico é constituída pelos nervos olfativos. O cheiro ou a ideia da comida estimulam a sensação de fome no hipotálamo, o que nos motiva a procurar comida. Há muitos animais que também são capazes de farejar água, mesmo a grandes distâncias. 

Ainda, a detecção olfativa de variações no odor corporal é importante para a reprodução. Para alguns animais, por exemplo, a identidade do odor é essencial: quando um cordeiro nasce, a ovelha-mãe estabelece uma memória de longo prazo de seu cheiro específico e desenvolve um vínculo permanente com base principalmente em dicas olfatórias. Em uma fêmea de camundongo recentemente fertilizada, o cheiro de um macho estranho (mas não do seu parceiro recente, do qual ela se lembra) pode desencadear o aborto.

Os seres humanos também têm a capacidade de reconhecer o odor de outros seres humanos. Por exemplo, bebês já com 6 dias de idade mostram uma clara preferência pelo odor do peito de sua própria mãe quando comparado ao odor de outras mães lactantes. As mães, por sua vez, geralmente podem identificar o odor de seu bebê entre várias outras crianças.

Para a detecção e reconhecimento desses odores corporais liberados no ar por indivíduos da mesma espécie, a maior parte das espécies de vertebrados tem um órgão situado na cavidade nasal denominado órgão vomeronasal (OVN). A finalidade do OVN parece ser exclusivamente a de detectar sinais químicos – os ferormônios , envolvidos numa variedade de comportamentos sociais, incluindo maternidade, acasalamento, territorialidade e alimentação. 

Esses animais usam o sistema olfatório acessório para detectar ferormônios e mediar essa variedade de comportamentos sociais. Esse sistema funciona em paralelo ao sistema olfatório primário. Ele consiste em regiões separadas na cavidade nasal quimicamente sensíveis, em particular o órgão vomeronasal, que se projeta para o bulbo olfatório acessório e, dali, fornece sinais de entrada para o hipotálamo.  

 

Sistemas olfativos.

 

Os ferormônios distinguem-se dos hormônios, porque estes são liberados internamente e exercem influência sobre o metabolismo do indivíduo, enquanto que os ferormônios são liberados externamente, com atividade sobre indivíduos da mesma espécie.

 

FerormôniosHormônios
Liberados externamenteLiberados internamente
Atividade sobre indivíduos da mesma espécieInfluência sobre o metabolismo do indivíduo

 

Quanto à estrutura química dos ferormônios sexuais, verifica-se a existência de composição muito diversificada, variando a sua natureza com as diferentes espécies. Já foram identificados sob as formas de derivados de ácidos graxos ou terpenos, álcoois, acetatos, hidrocarbonetos (frequentemente insaturados, com uma ou duas ligações duplas), substâncias aromáticas com grupos funcionais diversos, etc. A maioria deles é constituída por moléculas simples e de peso molecular relativamente baixo.

 

Substâncias voláteis constituintes de alguns aromas florais
NomeNatureza químicaOrigem
Limoneno MonoterpenoPrincipal constituinte do aroma de flores de cítricos
GeraniolMonoterpenoGerânio e rosa
β-iononaSequiterpenoVioleta
VanilinaAldeído aromáticoEncontrado em flores de orquídeas e também em baunilha
PentadecanoHidrocarbonetoFlores e magnólias
1-octanolÁlcool alifáticoUm dos constituintes do aroma exalado pelo gênero Ophrys (pertencente à família das orquídeas – Orchidaceae) 

 

Alguns dos constituintes químicos de aromas florais desagradáveis (espécies das famílias Umbelliferae e Araceae)
Estrutura químicaNome da substânciaCaracterística do odor
CH3NH2MetilaminaOdor de peixe
CH3(CH2)5NH2HexilaminaOdor de peixe
NH2(CH2)4NH2PutrescinaOdor de proteína em decomposição
NH2(CH2)5NH2CadaverinaOdor de proteína em decomposição
C8H5NHCH3EscatolOdor de fezes

 

Fonte: https://technical.ly/brooklyn/2016/02/16/smell-dating-anti-software-dating-app-useless-press/

Odores podem ter influência sobre as emoções e evocar memórias, mas quão importantes são eles para o comportamento humano?

 

Há cerca de 30 anos, a pesquisadora Martha McClintock relatou: mulheres que passavam muito tempo juntas frequentemente tinham ciclos menstruais sincronizados. Esse efeito é provavelmente mediado por ferormônios. Em 1998, outro trabalho de McClintock com Kathleen Stern na Universidade de Chicago evidenciou que humanos podem se comunicar através de ferormônios. As pesquisadoras observaram que compostos inodoros de um grupo de mulheres (doadoras) podiam influenciar os períodos dos ciclos menstruais de outras mulheres (receptoras). Substâncias químicas corporais foram coletadas colocando-se compressas de algodão sob os braços das doadoras por pelo menos oito horas. As compressas eram passadas sob as narinas das receptoras, que haviam concordado em não lavar o rosto por seis horas. As receptoras não eram informadas sobre a origem das substâncias químicas nas compressas e não percebiam conscientemente qualquer odor. Contudo, dependendo do tempo do ciclo menstrual da doadora, a receptora encurtava ou prolongava seu ciclo menstrual. 

Ainda, o odor de uma mulher pode, por exemplo, ser fonte de excitação para homens sexualmente experientes (e vice-versa), presumivelmente devido a associações aprendidas. 

Esses resultados são evidências de que seres humanos podem se comunicar por meio de ferormônios. Contudo, esse assunto ainda é cheio de controvérsias.

Estudos anatômicos demonstraram que o órgão vomeronasal no ser humano regride durante o desenvolvimento, podendo estar ausente ou ser vestigial em pessoas maduras. No entanto, um pequeno caroço existe no septo nasal de certas pessoas, o que leva alguns estudiosos a argumentar que esse nódulo representaria um órgão vomeronasal funcional. Além disto, quando é identificável, o OVN não parece apresentar receptores proteicos funcionais ou conexões diretas com o encéfalo. Porém, isto por si só não significa que os seres humanos perderam a sinalização com ferormônios, uma vez que estes podem passar através dos principais órgãos olfatórios.

Órgão vomeronasal.
Traduzido e modificado de: JONES, R.E.; LOPEZ, K.H. The Human Sexual Response. In: JONES, R.E.; LOPEZ, K.H. (editors). Human Reproductive Biology. 4th edition. San Diego, Academic Press. 2014. Chapter 8, p. 135-157.

 

 

Quando identificável, o OVN humano consiste de duas pequenas bolsas de 2 mm de profundidade, cerca de 1 cm a partir das narinas, abrindo-se em pequenas cavidades ocas com pequenos orifícios em seus  centros, de cerca de 0,1 mm de distância. Só para comparação: o OVN do elefante tem 20-25 cm de comprimento! 

 

 

 

 

 


OBS.:

Estudos anatômicos realizados em cadáveres são discordantes em relação àqueles realizados em seres humanos vivos, devido à retração da mucosa que ocorre rotineiramente no  post-mortem, o que levaria à oclusão do orifício do OVN, dificultando a sua identificação por visão direta. Outro fator que dificulta a identificação do OVN á a variação do diâmetro do seu  orifício, desde 0,2 mm até 2 mm. Os orifícios de menor diâmetro somente seriam identificados através da microscopia. 


 

Fonte: https://gifer.com/en/7gUQ

Mediante o apresentado, ainda não há evidências convincentes de que ferormônios humanos possam mediar atração sexual (em ambos os sexos) por meio de mecanismos inatos. Porém, considerando-se  as possíveis implicações comerciais de tais substâncias, certamente as pesquisas continuarão.

 

 

Qual é o segredo da atração? 

 

Filósofos, biólogos, sexólogos, antropologistas e outros têm debatido bastante esta questão. Dependendo do ponto de vista, existem muitas respostas, mas nenhuma é única. Uma das mais antigas atrações é provocada pelo cheiro. Tanto os humanos quanto os animais exalam quantidades sutis de ferormônios, detectáveis (inconscientemente por humanos) pelo sexo oposto, o qual desencadeia uma resposta específica em um parceiro potencial. Dessa forma, para alguns, o amor não começa quando os olhares se encontram, mas sim um pouco mais embaixo, no nariz. "Há circuitos que vão do olfato até o cérebro e levam uma mensagem muito clara: sexo". Nos homens e mulheres, este odor é liberado através das glândulas apócrinas, localizadas nas axilas, ao redor dos mamilos e na virilha (estes odores não são desagradáveis como o suor). As secreções apócrinas começam na puberdade com o desenvolvimento sexual e são diferentes entre os dois sexos.

Quando o anatomista Dr. David Berliner estava pesquisando a composição da pele humana, observou que, quando deixava abertos frascos contendo extratos de pele, os sentimentos dele e das pessoas à sua volta pareciam mudar – tornavam-se mais cálidos e amistosos. Esses sentimentos diminuíam se os frascos eram tampados. Essas descobertas levaram-no a investigar o potencial que as diferentes substâncias têm para estimular o órgão do "sexto sentido", o OVN, e a pesquisar o uso de ferormônios como perfumes, de modo a dar à natureza uma "mãozinha" no campo dos romances.

Durante o último encontro anual da Sociedade Britânica de Psicologia, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Northumbria, Universidade pública do Reino Unido localizada em Newcastle upon Tyne, anunciou o resultado de um estudo sobre a influência dos ferormônios na capacidade de atração sexual. O estudo baseou-se na projeção de fotografias de homens para diferentes grupos de mulheres, que avaliavam cada um segundo seu sex-appeal. A classificação "atraente" era mais frequente quando os cientistas borrifavam o ambiente com ferormônios. Segundo Nick Neave, chefe da pesquisa, os mais beneficiados pelo efeito afrodisíaco do suor foram os homens de aparência mais comum.

 

Amor ao "primeiro cheiro"

 

Um tradicional exemplo do estreito vínculo entre olfato e desejo é a síndrome de Kalman, um quadro genético de alteração hormonal que prejudica a puberdade e que está acompanhado por uma ausência congênita do olfato. Com a ajuda de tratamento, esses pacientes chegam a ter níveis normais de hormônios, mas não recuperam o olfato e isso têm efeitos diretos em sua vida afetiva. "No consultório atendo pacientes com problemas de olfato, todos com dificuldades no plano sexual. Uma paciente me disse que desde que perdera o olfato não tinha vontade de ter relações sexuais com o marido", conta o médico García Medina.

 

Alternativa para problemas sexuais?

 

O laboratório canadense Pheromone Sciences Corp. isolou e caracterizou os diversos ferormônios extraídos do suor. Uma primeira pesquisa revelou que o composto pode estimular a libido em homens e mulheres. Os pesquisadores esperam que, em um futuro não muito distante, esse derivado de ferormônios possa servir como tratamento efetivo e seguro para determinadas disfunções sexuais. Inclusive como complemento de remédios como o Viagra.

"Alguns derivados dos ferormônios já são usados para casos de frigidez feminina e ajudam na primeira etapa da sexualidade, que é o desejo", afirma García Medina. "Isso pode ter um grande potencial em outros tipos de disfunções sexuais, mas ao mesmo tempo, reacende questões éticas: É lícito interferir dessa forma no comportamento de uma pessoa?"

 

Para ler mais a respeito, leia: A Fisiologia da Paixão.

 

Veja também:

- Como perfume influencia na escolha de parceiros (e o que isso tem a ver com o sistema imune).

 

 

Continue seu aprendizado

Aprofunde-se mais com nossos livros indicados: